segunda-feira, 9 de março de 2009

Ondados fios de ouro reluzente




Ondados fios de ouro reluzente,
Que, agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos,
Fazeis que a sua beleza se acrescente;

Olhos, que vos moveis tão docemente,
Em mil divinos raios encendidos,
Se de cá me levais alma e sentidos,
Que fora, se de vós não fora ausente?

Honesto riso, que entre a mor fineza
De perlas e corais nasce e parece,
Se na alma em doces ecos não o ouvisse!...

Se, imaginando só tanta beleza,
De si em nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir?... Ah! Quem a visse…




O texto é constituído por duas quadras e dois tercetos em metro decassilábico, com um esquema rimático ABBA // ABBA // CDE // CDE, verificando-se a existência de rima interpolada em “A”, emparelhada em “B” e interpolada em “C,D,E”.
O soneto aborda o tema a mulher, mais propriamente, o ideal Petrarquista. Este ideal é sempre descrito como uma mulher perfeita, bela, nobre, só descritível em imagens hiperbólicas. No soneto “Ondados fios de ouro reluzente”, verifica-se a descrição física, à maneira de Petrarca, de uma mulher, que contribui para a sua caracterização moral.
O poema apresenta uma enumeração metafórica dos atributos físicos da mulher, sendo apresentados os cabelos: “Ondados fios de ouro reluzente”, rosto metaforizado em “rosas”, os olhos como “raios encendidos”, o riso, e os dentes e os lábios, metaforizados em “perlas e corais”. Esta caracterização respeita o ideal feminino petrarquista e assume também a ausência da amada: “Se na alma em doces ecos não o ouvisse!...”. Assim, afastado do objecto da sua devoção, o poeta deseja a proximidade: “Que será quando a vir… Ah! Quem a visse…”, utilizando um discurso expressivo, marcado pela suspensão das ideias – visível na utilização das reticências – e com expressões interjectivas.

Rúben Horta e Duarte Teixeira

Aquela Triste e Leda Madrugada



Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.


Este texto é constituído por duas quadras e dois tercetos em metro decassilábico, com esquema rimático, ABBA/ABBA/CDC/CDC, verificando-se a existência de rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada em CD.
O soneto aborda a separação de dois sujeitos que estiveram juntos e o sofrimento que essa separação provocou, utilizando o termo anafórico “Ela”, que substitui a palavra madrugada ao longo do poema, referindo-a como única testemunha desse afastamento. O sentimento predominante neste soneto é a tristeza.
A madrugada é personificada e testemunhou até ao fim a separação dos amantes: “Ela só viu…”, ocorrida no momento em que o dia nascia, trazendo luz e beleza à terra: “…quando amena e marcchetada/ saía, dando ao mundo claridade”. A esta beleza de uma madrugada primaveril opõe-se o sofrimento dos amantes que se separam, e que surge apresentado em metáfora que se transforma em hipérbole: “… as lágrimas em fio” que se acrescentaram em “grande e largo rio”.
O soneto termina com a separação definitiva dos amantes, que é acompanhada por palavra “magoadas” que metaforicamente vão atenuar o fogo da paixão, tornando-o frio, e proporcionando, de certa forma, alívio às almas condenadas ao inferno do sofrimento.

Análise realizada por: Joel Horta e Hugo Vidal

quarta-feira, 4 de março de 2009

Como quando do mar tempestuoso



Como quando o mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
de um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso,

e jura que, em que veja bonançoso
o violento mar e sossegado,
não entre nele mais, mas vai forçado
pelo muito interesse cobiçoso;

assi, Senhora, eu, que da tormenta
de vossa vista fujo, por salvar-me,
jurando de não mais em outra ver-me:

minh’alma, que de vós nunca se ausenta,
dá-me por preço ver-vos, faz tornar-me
donde fugi tão perto de perder-me.

O texto é um soneto constituído por duas quadras e dois tercetos, em metro decassilábico, com o esquema rimático: ABBA / ABBA / CDE / CDE, verificando-se a existência de rima interpolada em A, emparelhada em B, interpolada em C, D, e E.
O soneto abrange o tema do Amor, especificamente os efeitos negativos que a visão da mulher amada provoca.
O sujeito poético, ao longo das duas quadras, fala de uma metafórica aventura pelo mar que se tornou violento e que provocou um naufrágio, do qual o marinheiro conseguiu salvar-se: “… o marinheiro, lasso e trabalhado,/ de um naufrágio cruel já salvo a nado, …”.
Embora este lhe tenha provocado medo, depois de se encontrar fora do mar, por interesse, regressa: “só ouvir falar nele o faz medroso,…” ; “ jura (…) / não entrar nele mais, mas vai, forçado / pelo muito interesse cobiçoso, …”. Esta metáfora – que acaba por se tornar numa imagem – remete para o homem que, perdido de amores, jura não voltar a amar, porém acaba por voltar a apaixonar-se.
No início da primeira quadra e do primeiro terceto, o sujeito poético utiliza termos de comparação: “Como” (verso 1) e “Assi” (verso 9), estabelecendo uma relação de semelhança entre o mar tempestuoso e a sua amada, o que permite a descodificação de toda a metáfora do “mar tempestuoso” como relação amorosa.
Consciente de que ver a amada é uma “tormenta” (v.9), o poeta tenta salvar-se: “de vossa vista fujo, por salvar-me” (v.10), no entanto, tal como o marinheiro que regressa ao mar, também o sujeito lírico acaba por voltar ao convívio com a amada o que o leva ao sofrimento: “minh’alma, que de vós nunca se ausenta,/ dá-me por preço ver-vos, faz tornar-me/ donde fugi tão perto de perder-me”.

Jorge Vidal & Patrícia Cordeiro.

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja


..................................Pede-me o desejo, Dama, que vos veja, .
..................................não entende o que pede; está enganado.
..................................É este amor tão fino e tão delgado, .
..................................que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja .
que não queira perpétuo seu estado; .
não quer logo o desejo o desejado, .
porque não falte nunca onde sobeja. .

Mas este puro afeito em mim se dana; .
que, como a grave pedra tem por arte .
o centro desejar da natureza, .

assi o pensamento (pola parte .
que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
..................................foi, Senhora, pedir esta baixeza. .



Formalmente o poema “Pede-me o desejo, Dama, que vos veja” de Luís de Camões é um soneto constituído por duas quadras e dois tercetos em versos decassilábicos. O texto obedece ao esquema rimático dos sonetos – ABBA//ABBA//CDE//CDE, havendo rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada em C, D, E. O tema do soneto é o Amor.
O Amor surge apresentado ao longo do poema de forma contraditória: o amor ideal (puro/platónico) e o amor físico (erótico/sensual). Estes dois tipos geram um conflito no poeta, pois este pede, em apóstrofe, à Dama a satisfação do desejo físico:”Pede-me o desejo, Dama, que vos veja”, e de imediato clarifica o seu erro e quase pede desculpa: “não entende o que pede; está enganado”. A personificação do desejo ajuda a que o poeta, de certa forma, se distancie dele:”Pede-me o desejo”, pois o amor é “tão fino e tão delgado”, ou seja, é ideal, puro, e por isso o desejo, que remete para a sensualidade, “está enganado”. Para esclarecer esta ideia, o sujeito poético utiliza a lógica, afirmando que tudo na natureza deseja perpetuar o seu estado, não podendo, por isso, o desejo ser nunca satisfeito: “Não há cousa a qual natural seja/que não queira perpétuo seu estado; /não quer logo o desejo o desejado, /porque não falte nunca onde sobeja.”.
A segunda parte do poema introduz, de certa forma, o desgosto do poeta, ao verificar que o seu “puro afeito” “se dana”, pois, sendo um elemento da natureza, tal como a pedra, o sujeito poético não se liberta do desejo e, à semelhança desta que “tem por arte/o centro desejar da natureza”, também ele tem desejo, uma “baixeza”, pois reduz o pensamento à sua parte “terrestre [e] humana”, impedindo assim de ascender ao ideal.

Filipa Fonseca

Rita Ribeiro

segunda-feira, 2 de março de 2009

Quando o sol encoberto vai mostrando



Quando o sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de ũa praia deleitosa
Vou na minha inimiga imaginando.


Aqui a vi, os cabelos concertando;
Ali, co'a mão na face tão, formosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.


Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos, tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura.

Aqui se entristeceu, ali se riu.
E, enfim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vã, que sempre dura.



___Formalmente o poema “Quando o Sol encoberto vai mostrando” de Luís Camões é um soneto, pois é constituído por duas quadras e dois tercetos em verso decassílabo. O texto obedece ao esquema rimático ABBA/ABBA/CDE/CDE, havendo rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada também em CDE.
___O soneto aborda a ausência da mulher e as lembranças que dela tem o poeta. Surge organizado numa forma tripartida, começando com uma localização no espaço “uma praia deleitosa” e no tempo “mostrando ao mundo a luz”, ou seja, ao nascer do dia.
___Na segunda parte, constituída pela segunda quadra e pelo primeiro terceto, o poeta, que se perde em lembranças de mulher amada, alterna momentos utilizando expressões disjuntivas (aqui/ali) e (agora/agora), que transmitem liricamente a recordação de uma série de comportamentos que ajudam a traçar o retrato da amada e a proximidade que no passado existiu entre os dois: “Aqui a vi, os cabelos concertando;/ Ali, co'a mão na face tão, formosa; / Aqui falando alegre, ali cuidosa;”. Estas lembranças causam sofrimento no poeta, que vai surgir expresso no último terceto.
___Finalmente, na terceira parte, últimos dois versos, a chave de ouro, “enfim”é uma expressão de síntese conclusiva, pois o poeta reúne o seu sofrimento e desgaste psicológico numa expressão globalizante: “cansados pensamento”, que o acompanham de forma duradoura ao longo de uma vida “vâ”, ou seja, sem esperança, que, para infelicidade do sujeito poético, “sempre dura”.

Fábio Pinto

Fábio Gonçalves