segunda-feira, 9 de março de 2009

Alma minha gentil, que te partiste





Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


O soneto é constituído por duas quadras e dois tercetos, em metro decassílabo com um esquema rimático ABBA//ABBA//CDC//CDC verificando-se a existência de rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada em CD.
O poeta dirige o seu discurso à mulher amada, que, para sua tristeza, morreu jovem: “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida, descontente,”. Ao longo do soneto, o poeta vai-lhe fazendo alguns pedidos, utilizando frases imperativas, tais como: “repousa lá no céu…”,”não te esqueças daquele amor ardente…” e “roga a Deus…”. Afirma também que está em sofrimento e aponta as razões desta tristeza, que se ligam, essencialmente, à ausência da amada, marcada pela distância entre o céu - local de morada dela: ”repousa lá no Céu” - e a terra, espaço de vida do poeta: “viva eu cá na terra”. Estas referências espaciais surgem associadas aos termos com valor deíctico “cá” e “lá”, que reforçam a relação de afastamento entre os dois amantes. Assim, a solução para o sofrimento do sujeito poético seria a aproximação entre os dois e, por isso, ele pede-lhe que rogue a Deus para o levar rapidamente para junto dela: “Roga a Deus, que teus anos encurtou,/ Que tão cedo de cá me leve a ver-te,/ Quão cedo de meus olhos te levou.”
De notar a utilização constante de eufemismos para a referência quer da morte da amada, quer da do poeta: “partiste tão cedo desta vida”, “Deus, que teus anos encurtou” e “que de cá me leve a ver-te”, o que é uma estratégia de poetização de um afastamento irreversível.



Mário Carvalho e Bárbara Carvalho

3 comentários:

  1. "tão cedo desta vida, descontente" - não há esta vírgula, pois, se houvesse, perdida estaria a ambiguidade poética. Quem é descontente? A vida ou a amada? Para Camões, a vida, claro...

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    1. nossssssa 2010 .. sdds dessa epoca #feliz 2016 :)

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  2. 1--Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida, descontente,
    Repousa lá no Céu eternamente
    E viva eu cá na terra sempre triste.
    Se lá no assento etéreo, onde subiste,
    Memória desta vida se consente,
    Não te esqueças daquele amor ardente
    Que já nos olhos meus tão puro viste.
    E se vires que pode merecer-te
    Algua cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
    2--Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.
    Sete anos de pastor Jacó servia
    Labão, pai de Raquel, serrana bela;
    Mas não servia ao pai, servia a ela,
    E a ela só por prêmio pretendia.
    Os dias, na esperança de um só dia,
    Passava, contentando-se com vê-la;
    Porém o pai, usando de cautela,
    Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
    Vendo o triste pastor que com enganos
    Lhe fôra assim negada a sua pastora,
    Como se a não tivera merecida,
    Começa de servir outros sete anos,
    Dizendo: -Mais servira, se não fôra
    Para tão longo amor tão curta a vida!
    3--Amor é fogo que arde sem se ver;
    É ferida que dói e não se sente;
    É um contentamento descontente;
    É dor que desatina sem doer;
    É um não querer mais que bem querer;
    É solitário andar por entre a gente;
    É nunca contentar-se de contente;
    É cuidar que se ganha em se perder;
    É querer estar preso por vontade;
    É servir a quem vence o vencedor;
    É ter com quem nos mata lealdade.
    Mas como causar pode seu favor
    Nos corações humanos amizade,
    se tão contrário a si é o mesmo Amor?
    4--Transforma-se o amador na cousa amada,
    por virtude do muito imaginar;
    não tenho logo mais que desejar,
    pois em mim tenho a parte desejada.
    Se nela está minha alma transformada,
    que mais deseja o corpo de alcançar?
    Em si somente pode descansar,
    pois consigo tal alma está liada.
    Mas esta linda e pura semidéia,
    que, como o acidente em seu sujeito,
    assim co’a alma minha se conforma,
    está no pensamento como idéia;
    [e] o vivo e puro amor de que sou feito,
    como matéria simples busca a forma.
    5-- Busque Amor novas artes, novo engenho. a
    Pera matar-me, e novas esquivanças; b
    Que não pode tirar-me as esperanças, b
    Que mal me tirará o que eu não tenho. a
    Olhai de que esperanças me mantenho! a
    Vede que perigosas seguranças! b
    Que não temo contrastes nem mudanças, b
    Andando em bravo mar, perdido o lenho. a
    Mas, conquanto não pode haver desgosto c
    Onde esperança falta, lá me esconde d
    Amor um mal, que mata e não se vê; e
    Que dias há que na alma me tem posto c
    Um não sei quê, que nasce não sei onde, d
    Vem não sei como, e dói não sei por quê. e
    6--Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade
    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.
    Continuamente vemos novidades,
    Diferentes em tudo da esperança,
    Do mal, ficam as mágoas na lembrança,
    E do bem, se algum houve, as saudades.
    O tempo cobre o chão de verde manto,
    Que já coberto foi de neve fria;
    E em mim converte em choro o doce canto.
    E, afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto:
    Que não se muda já como soía.

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