quarta-feira, 4 de março de 2009

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja


..................................Pede-me o desejo, Dama, que vos veja, .
..................................não entende o que pede; está enganado.
..................................É este amor tão fino e tão delgado, .
..................................que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja .
que não queira perpétuo seu estado; .
não quer logo o desejo o desejado, .
porque não falte nunca onde sobeja. .

Mas este puro afeito em mim se dana; .
que, como a grave pedra tem por arte .
o centro desejar da natureza, .

assi o pensamento (pola parte .
que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
..................................foi, Senhora, pedir esta baixeza. .



Formalmente o poema “Pede-me o desejo, Dama, que vos veja” de Luís de Camões é um soneto constituído por duas quadras e dois tercetos em versos decassilábicos. O texto obedece ao esquema rimático dos sonetos – ABBA//ABBA//CDE//CDE, havendo rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada em C, D, E. O tema do soneto é o Amor.
O Amor surge apresentado ao longo do poema de forma contraditória: o amor ideal (puro/platónico) e o amor físico (erótico/sensual). Estes dois tipos geram um conflito no poeta, pois este pede, em apóstrofe, à Dama a satisfação do desejo físico:”Pede-me o desejo, Dama, que vos veja”, e de imediato clarifica o seu erro e quase pede desculpa: “não entende o que pede; está enganado”. A personificação do desejo ajuda a que o poeta, de certa forma, se distancie dele:”Pede-me o desejo”, pois o amor é “tão fino e tão delgado”, ou seja, é ideal, puro, e por isso o desejo, que remete para a sensualidade, “está enganado”. Para esclarecer esta ideia, o sujeito poético utiliza a lógica, afirmando que tudo na natureza deseja perpetuar o seu estado, não podendo, por isso, o desejo ser nunca satisfeito: “Não há cousa a qual natural seja/que não queira perpétuo seu estado; /não quer logo o desejo o desejado, /porque não falte nunca onde sobeja.”.
A segunda parte do poema introduz, de certa forma, o desgosto do poeta, ao verificar que o seu “puro afeito” “se dana”, pois, sendo um elemento da natureza, tal como a pedra, o sujeito poético não se liberta do desejo e, à semelhança desta que “tem por arte/o centro desejar da natureza”, também ele tem desejo, uma “baixeza”, pois reduz o pensamento à sua parte “terrestre [e] humana”, impedindo assim de ascender ao ideal.

Filipa Fonseca

Rita Ribeiro

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