segunda-feira, 16 de março de 2009

Lembranças, que lembrais meu bem passado





Lembranças, que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente:
deixai-me, se quereis, viver contente,
não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
viver, como se vê, tão descontente,
venha, se vier, o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito milhor é perder a vida,
perdendo-se as lembranças da memória,
pois tanto dano faz o pensamento.

Assi que nada perde quem perdida
a esperança traz de sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.



O texto é um soneto constituído por duas quadras e dois tercetos, em metro decassílabo, com esquema rimático: ABBA/ ABBA/ CDE/ CDE, verificando-se a existência de rima interpolada em A, emparelhada em B e interpolada novamente em C, D, e E.
O tema deste soneto é o Amor, e os efeitos que este traz no sujeito poético. O poeta dirige-se a um interlocutor, que são as suas memórias/lembranças do passado, e pede-lhes que o deixem viver contente: “deixai-me, se quereis, viver contente.”, se não, prefere a morte, visto que não tem nada a perder: "venha, se vier, o bem por acidente, / e dê a morte fim a meu cuidado.”; “Que muito milhor é perder a vida,” (…) “se esta vida há-de ser sempre em tormento”.
O sujeito poético passa por uma fase em que anuncia que se não pode viver contente, então prefere morrer: “não me deixeis morrer em tal estado”.
Ainda que o seu passado tenha sido bom, “…meu bem passado”, o presente já não corre tão bem: “…sinta mais o mal presente…”. Assim, a morte trar-lhe-ia paz, pois, ao perder as suas memórias, todo o dano causado por estas a seu pensamento seria eliminado: “Que muito milhor é perder a vida,/perdendo-se as lembranças da memória,/pois tanto dano faz ao pensamento". Deste modo, toda a esperança perdida e a vida em constante tormento acabariam: “…que nada perde quem perdida/ a esperança traz…”, “se esta vida há-de ser sempre em tormento."

Jorge Vidal & Patrícia Cordeiro

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